Vivmais

Sim, envelhecemos, este é um fato implacável da biologia, que ainda teimamos em negar. Por esta razão ainda há muitas mulheres que caem nas armadilhas dos modelos sociais impostos e da ditadura da juventude e tentam permanecer nela, ao invés de se prepararem para esta fase que requer um outro olhar para a vida. Somos convidadas a passear pela vida com diversos marcos sociais que são aguardados, celebrados, ritualizados. No entanto, as sociedades que chamamos de ocidentais em geral ainda desvalorizam esta etapa da vida ou tentam, em vão, apagá-la. Este cenário vem mudando recentemente, mas ainda há muito a percorrer para estreitarmos laços com este estágio da vida, pois isso requer estarmos serenos com a finitude.

Não há uma data específica, obviamente, em que a velhice começa, mas para as mulheres um marco biológico que acende aluz para as questões do envelhecimento envolvem o climatério é a menopausa. Neste momento a falta de conhecimento sobre o próprio corpo, aliada às cobranças sociais e pessoais pautadas pela ditadura da juventude, formam uma combinação explosiva e trazem mais dificuldades para um processo que por si só já é desafiador em muitos sentidos. É um período da vida que traz uma marca biológica transformadora, mas que também está impregnado de significados psicossociais.

Papeis sociais e o curso de vida

Ao longo da vida exercemos e somos cobrados, pelos grupos sociais a que pertencemos (ou queremos pertencer), papéis sociais, que podem ser herdados ou conquistados, mas sempre afloram da interação social, são sempre resultado de algum processo de socialização. Eles circunscrevem aquilo que é característico daquele papel, o que se espera de quem o exerce, qual o grau de protagonismo naquele grupo social e cada um acaba sendo espectador e autor de rupturas e transformações nos costumes e estilos de vida dentro do grupo e na sociedade. As Ciências Sociais definem 4 Dimensões Sociais: Classe, Gênero, Raça, e Geração e elas balizam estes papeis, mesmo que eles sejam fluidos.

Outro ponto a se considerar é o que a Gerontologia chama de Curso de Vida (Life-Span), conceito cunhado por Paul Baltes em 1991. Em resumo ele nos atenta para o fato de que a velhice será uma resultante das etapas de vida anteriores, o que basicamente nos leva ao ditado popular “cada um colhe o que plantou”. Os pontos principais deste conceito são:

Múltiplos preconceitos e vulnerabilidades

O Curso de Vida vai englobar cada Trajetória e as experiências compartilhadas, as Relações de podervivenciadas no contexto privado ou público, atravessados pelos condicionantes geracionais, de gênero e pertencimento de classe; em composição com as Experiências simbólicas e concretas condicionadas ao processo de amadurecimento e de envelhecimento pessoal, as conjunturas socioeconômicas, a que qualquer pessoa está sujeita. Isso tudo vai estabelecer para cada ser diversas  expectativas sociais segundo classe social, idade e gênero.

Gênero e classe social estruturam conformam a ação social de um indivíduo e também direcionam  as expectativas e em todas as idades. Ao envelhecer, paradigmas da vida pregressa em relação à identidade de gênero são amplificados ou simplesmente reproduzidos. Ou seja, o papel da mulher tende a se manter ou ser piorado na velhice.  Todos os fatores têm reflexos claros na forma de envelhecer e de encarar a velhice.  Com o grande crescimento como grupo etário por toda parte o envelhecimento torna-se uma questão global e particularmente “feminina”.

É evidente que, mesmo reconhecendo os avanços alcançados, ainda persiste um patente abismo que separa mulheres e homens de caminharem no mesmo patamar em aspectos profissionais, financeiros e sociais. É preciso aumentar o conhecimento sobre essa parcela da população e sobre os significados desse desequilíbrio em toda sua complexidade. A revolução da longevidade exige o desenvolvimento de um novo paradigma, que inclua um novo contrato social entre mulheres e homens. Toda mulher terá na sua velhice efeitos cumulativos de sua jornada, que desde cedo acumula  múltiplas opressões, preconceitos, violências e desigualdades, independentemente do local no mundo.

Cuidado: nos ombros femininos do berço ao túmulo

O cuidado é um tema que vem ganhando espaço pois estamos nos dando conta de que, se cada um está vivo hoje é porque, alguém no passado e ainda hoje – muito provavelmente, uma mulher – despende horas de atenção com alimentação, saúde, higiene, estudos e lazer. Tudo para que cada um de nós possamos estar saudáveis e aptos para viver em sociedade. Está enraizado dentre os papeis sociais em praticamente todas as sociedades, que se espera que a mulher exerça esse papel, que esta seria sua atribuição natural, da maternidade à morte.  Atualmente se reconhece que isso dificulta vários outros aspectos da vida dela, como seus avanços  profissionais sua saúde física e mental.

Um levantamento realizado em 2020 pela Lab Think Olga revelou que, mesmo sendo frequentemente invisibilizado, o trabalho de cuidado realizado pelas mulheres em todo o mundo representa uma economia impressionante, sendo 24 vezes maior que a do Vale do Silício. No contexto brasileiro, esse trabalho corresponde a 11% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional, e é maior do que qualquer indústria no país, correspondendo a mais do que o dobro do que todo setor agropecuário produz.

Outros números dão a dimensão da relevância do cuidado para a sociedade:

Os caminhos passam pelo esforço de desvincular a mulher do papel de cuidadora natural e atribuir a ele um novo significado: é tarefa de todos. Complementarmente, é fundamental tratar das questões raciais como fator determinante, uma vez que as mulheres negras estão sempre na linha de frente do cuidado e aliar os esforços da sociedade ao amparo de políticas públicas para que o cuidado seja reconhecido com valor social.

Rumos: Economia do Cuidado e Política Nacional do Cuidado

Dada a importância social e econômica do cuidado, hoje se fala muito sobre a Economia do Cuidado, que engloba o conjunto de ações relacionadas aos cuidados para a manutenção da vida de outras pessoas, podendo ser remunerado ou não. O termo saiu das pesquisas sociológicas e econômicas sobre o trabalho doméstico e reprodutivo e alcançou os debates acerca dos direitos, principalmente de mulheres, que dedicam suas vidas ao cuidado dos filhos e ao gerenciamento de seus lares. Mesmo que os debates sobre o tema estejam ganhando mais espaço, o real reconhecimento do cuidado como um trabalho ainda é um desafio.

Recentemente, o governo federal deu um importante passo para a valorização da economia do cuidado no Brasil. No dia 31 de março de 2023, foi instituído o Grupo de Trabalho Interministerial com a finalidade de elaborar a proposta da Política Nacional de Cuidados e a proposta do Plano Nacional de Cuidados do Brasil. Este Grupo de Trabalho (GT) ficará a cargo do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome e do Ministério das Mulheres e terá em sua composição 20 membros, sendo 17 vindos de Ministérios e 3 de entidades públicas convidadas (IBGE, IPEA e FioCruz). Esta política terá a missão de garantir os direitos tanto das pessoas que necessitam cuidados quanto das que cuidam, com especial atenção às desigualdades de gênero, raça, etnia e territoriais, além de promover as mudanças necessárias para uma divisão mais igualitária do trabalho de cuidados.

O cuidado é uma necessidade de todas as pessoas ao longo da vida e um direito de cada indivíduo, mas vemos a fragilidade social a que estamos sujeitos se não encararmos de forma mais estruturada e madura. O cuidado não é um assunto somente de âmbito familiar, mas também público e coletivo. Ou seja, a sociedade precisa agarrar esta oportunidade de debate e concepção das estratégias e ações que almejamos para nosso país em relação ao cuidado e estabelecer o apoio que o estado dará neste âmbito. Novos pactos sociais precisam ser construídos por todos nós!

Para saber mais

Autora: Lucila Egydio / Mestre em Gerontologia

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